 |
| Foto: Humberto Gollabeh |
*Texto feito em parceria com Humberto Gollabeh.
Carros sobem. Carros descem. São 21h03min. Os termômetros marcam 12 graus e as pessoas, devidamente agasalhadas, se misturam entre tons de preto, prostitutas, moradores de rua, vendedores ambulantes e passantes. O tom noturno e quase sombrio, aparentemente assustador, é o que domina a região do Baixo Augusta diariamente. Entretanto, engana-se quem acredita que a região é cenário para filmes de horror. É nesta região onde transitam os mais diversos públicos da cidade em busca de diversão, cultura, prazeres e trabalho.
A viatura da polícia metropolitana está parada em frente ao Espaço Itaú de Cinema. É comum encontrar nessa parte da rua Augusta ambulantes vendendo DVD’s piratas, livros, LPs, camisetas, lenços, anéis, pulseiras e toda a sorte de objetos comercializáveis. Nesta noite, os ambulantes não estão de plantão. A calçada está limpa e sem cores, como se antes não houvesse nada por ali.
Não é preciso caminhar muito para encontrar Luiz Alves da Silva, 61, o Luiz das Flores, que trabalha na região há trinta e nove anos. “Eu vendo diversos tipos de flores para todas as classes sociais”, diz, e com um riso tímido completa “Casais heterossexuais compram rosas, lírios e cravos. Os gays preferem girassóis e astromélias”. Luciano Chaves, 39, colega de Luiz das Flores, vende DVDs piratas ao lado de uma banca de revista há cinco anos. Trabalha todos os dias, menos domingo, como acha importante enfatizar, das 18h às 22h. Gosta da diversidade da região e vende os DVDs a cinco reais. “Mas se quiser levar 4 por 10, eu faço. O que vale é fazer o dinheiro circular!”, diz sedutoramente.
Na popular rua Frei Caneca, Julio César, 26, auxiliar administrativo, nunca trabalhou na região, mas é frequentador assíduo há 6 anos e busca diversão. “Tem uma infinidade de lugares que costumo frequentar: bares, festas e restaurantes. Gosto daqui, mas não acho a região segura”, diz. À vontade para falar sobre sua orientação sexual, entre gargalhadas, comenta, “Eu sou gay e a coisa mais inusitada que já vi vendendo por aqui foram imãs de geladeira com fotos de homens pelados. Choquei (no bom sentido)!”. A rua, que a pouco estava vazia, começa a ganhar vida com conversas, risinhos, copos de cerveja e fumaça de cigarros.
Numa esquina em que um bar serve de ponto de encontro, ainda na Frei Caneca, Sérgio Garcia, 24, consultor de moda e morador da Avenida Paulista, toma uma cerveja enquanto traga um cigarro e furtivamente investiga o ambiente. “Costumo descer por aqui aos finais de semana para me distrair, ver gente. As pessoas vendem de tudo por aqui, inclusive bebidas para menores”. São 21h25min.
Enquanto isso, Sandra de Oliveira, 49, ex-flanelinha e copeira de uma agência bancária, completa sua jornada dupla de trabalho como fiscal de um ponto de táxi. “Ai, adoro essa região. Os clientes já me conhecem, são meus amigos e me tratam muito bem”. Nove franceses saem de um restaurante acompanhados por uma brasileira, às 21h50min. A fiscal é responsável por parar três táxis que levarão os estrangeiros para a Alameda Lorena. Cinco minutos depois, retorna sorridente: “Aqui não importa se você é gay, branco, preto ou gringo. É seguro, as pessoas querem morar por aqui”.
Carros sobem. Carros descem. São 22h. Os termômetros ainda marcam 12 graus. Ainda assim, garotas chamam atenção com seios volumosos por baixo da pouca roupa. Ao pedido de entrevista, uma delas, de cabelos claros e possíveis 50 anos, simpaticamente diz: “Desculpe, não falo com jornalista”.
*originalmente publicado em 21/06/2012